terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Do dia para a noite (continuação)























Para regressar à Olivesaria.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O dia do Senhor Cozinheiro (continuação)



Nós, eu e os meus dois irmãos, detestávamos os domingos. Eram um pesadelo. A quantidade de louça que o meu pai sujava e que , conforme a escala, lá tínhamos que lavar. O meu pai ía de manhã ao mercado comprar peixe ou carne, hortaliças, legumes, o que calhasse para aquele ritual dominical que o tornava num minhoto um pouco mais feliz, neste deserto que a cidade pode ser para quem se baptizou na urze, na esteva, no pó dos caminhos; com que ele se lembrava que era da terra do mestre Silva e que tinham sido colegas de escola. No mercado negro da escala das tarefas lá de casa o domingo era um dia que valia - para além da troca com um dia normal da semana - dois ou três números da Verbo & Saber pequena, ou um de "O Mundo em que Vivemos", dos grandes, para além de cigarros, ou alguma daquelas quinquilharias que cobiçávamos entre irmãos. Apago as luzes, deixo apenas ficar acesa a do forno. Acendo um cigarro imaginário que tem quase a minha idade. O meu pai cozinhava com o cigarro ao centro da boca com a cinza num equilibrio mais dificil que a Torre de Pisa. Era sempre assim mas naquele espaço de quatro por quatro da cozinha lá de casa a minha mãe deixava-o solto, sem rédea. Ali era rei e senhor. Olho para dentro do forno e sinto uma enorme, incontrolável ternura. Eu nunca lhe confessei - e nunca lhe disse porque só agora é que me apercebo disso com essa clareza indesmentível - que tive vergonha dele. Durante algum tempo, quando viémos para Lisboa, fui substituindo o orgulho que tinha nele - lembro-me de, na Damião de Góis, quando me perguntaram qual era a profissão dele, ter escrito filósofo, porque não?, se os que tinham os pais licenciados em biologia escreviam biólogos, porque é que o meu pai que se tinha licenciado em filosofia não deveria ser filósofo? - por uma certa vergonha. Eu gostava dos pais modernos dos meus amigos e ía, a pouco e pouco, envergonhando-me do meu pai que, por ter sido padre, atrasara a sua vida. Os meus primeiros anos na cidade foram destruindo o capital de admiração que o meu pai acumulara em mim. E que era muito, enorme. O meu pai foi a minha árvore, a sombra fresca onde cresci sem sobressaltos de maior, o mestre onde aprendi as lições fundamentais. Não sei explicar este desacato da minha adolescência de outra maneira: é de espíritos insensatos esperar o reconhecimento e o sentimento de justiça por parte de um adolescente. Deles devemos e podemos desejar receber quase tudo, menos essas duas qualidades de espírito, que devemos guardar para as mentes calejadas pela têmpera do tempo. Na galeria dos pais da cidade João Belo ele era dos mais antigos e - por ter alma de campo e andar com a sua terra enraizada na alma - nunca se entusiasmou por ter uma casita de férias ou por ir a banhos para o Algarve. Praia para ele era deixar-nos ir para o areal e ir comprar isco para estar uma tarde inteira a lançar a cana ao mar. Durou pouco tempo esta vergonha, durou o pouco tempo que a adolescência média leva a passar. Ela parece uma história interminável quando a vivemos mas (felizmente) dura pouco tempo. A luz amarelecida do forno devolve-me a imagem do salmão já um pouco tostado. Abro a tampa e vem um cheiro a orégãos, tomate, cebola e azeite que me destapam os sentidos e eu volto à terra. Catrapisco o rio que se deita na janela da cozinha e delicio-me com o sabor destes momentos em que me reencontro com o meu pai. No dia em que o meu filho nasceu telefonei, desesperado, a um bom amigo, psicólogo, perguntei-lhe, Manel, e agora, como é que faço para ser um bom pai?! e ele, também pai, disse-me, é o teu filho que te vai ensinar a ser pai. É verdade, tem sido verdade ao longo destes quase sete anos. E agora, enquanto o travo do peixe assado se pavoneia diante das minhas narinas, descubro que também têm sido estas longas conversas que tenho com o senhor cozinheiro de domingo, que, ao longo destes anos todos, me têm ajudado a tentar ser melhor filho, melhor pai, melhor pessoa.






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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O meu primeiro beijo (continuação)

Chamo-lhe período catió porque nesse período vingavam as festas nas caves dos prédios da Catió. Eu gostava daquelas festas. Elas permitiam-me sentir-me moderno dançando desde os passinhos betosos do saturday night fever, numa primeira fase, até ao gingar de um guitarrista em pleno extâse, como se da extremidade dos meus dedos estivessem a sair os verdadeiros acordes. Adorava a música de circo dos madness, vibrava com os pink floyd, principalmente the wall, esse hino à nossa juventude recalcitrante, I will survive da Glória Gaynor, Blondie, One Way, de Ian Dury, Sex, and Drugs and Rock and Roll, Ramones, muito Zappa, Genesis, Police, Duran Duran, Mike Olfield, uma caldeirada musical misturada com cerveja de litro comprada ali no Brisa do Tejo e partilhada irmamente na relva das traseiras da Catió. Elas permitiam-me dançar, estar simultaneamente em grupo e sozinho, fazer parte e ser estranho, eram o acordo quase perfeito. Quase perfeito por que no meu imaginário não havia raparigas, tipas, gajas, não vou cometer a desfaçatez de chamar mulheres às raparigas que eu transformava nos meus hologramas de fantasia. Por isso, na altura dos slows, escapava-me para o banco em frente à rampa, ía ouvir os mesmos cromos de sempre a discutirem as jogadas mestras do campeonato. Isto era assim quase todos os fins de semana. Tanto que, por causa do prestígio que estas festas já tinham (em grande parte porque muitas das raparigas da Catió eram lindas), eu comecei a ser encarado por outros amigos, como um VIP, um bon vivant, daqueles a quem se devem convidar para as festas. Eu dizia que não, claro, eu era muito fiel às minhas festas da Catió, mas houve uma noite em que um amigo me conseguiu transladar para umas festas nas caves dos prédios da Almada Negreiros. Lá fui eu e, em terra estranha, aos meus costumes da Catió disse nada. Eu era uma espécie de vedeta contratada, não ía cantar, não ía dar autógrafos, mas ía, naquelas paragens, representar o espírito catió. Vou dançar um slow, dois, a estratégia era: a gente besuntava-se de perfume aramis ou paco rabanne e depois, cheios de confiança, começávamos a apertar um bocadinho muito cada vez mais. Não me peçam mais explicações ou pormenores, era assim que se fazia e a coisa funcionava. Como era gradual a rapariga, se se sentia muito pressionada ou se não estava para aí virada, podia ir rechassando o ataque e, do outro lado, para bom entendedor, uma mão travando o braço bastava. E como era tudo feito no escuro ninguém ficava envergonhado, os egos luzídios e a auto-estima lustrada asseguravam um desenvolvimento harmonioso da líbido adolescente. É claro que por vezes os mais ressabiados íam juntar-se ao banco dos contritos ou aflitos da bola e xingavam de alto a baixo aquela que lhe tinha dado nega, mas eram casos tão raros porque provocavam mais chacota do que prestígio para o mau perdedor. Nunca fui desses. Fazia a coisa pela calada, ter três irmãos lá em casa desenvolveu-me algum traquejo na arte da dissimulação, era a luta pela sobrevivência, se ela me dava uma tampa ou uma nega fazia um sorriso vencedor e saía por cima. Mas nesta festa tudo me estava a correr bem. O que dava jeito. É mau um tipo ir todo estilhaçante (com estilhaços de estilo, está-se a ver) e depois começar a apanhar com tampas umas atrás das outras. Eu já ía na quarta dança com a mesma rapariga e de avanço em avanço já tinhamos até começado a conversar. Quanto ao resto, não me perguntem, já disse. Ainda hoje estou para tentar perceber como é que naquela altura funcionava essa coisa do encosto, do aperto. Tesão? Não me parece! Não éramos tão tolos que nos sujeitássemos a levar uma bofetada diante da protuberância dos nossos genitais junto dos do nosso par. E além do mais éramos putos, um bocado parvos, bebíamos umas cervejolas e dizíamos frases feitas mas, a bem ou a mal, tinhamos alguma delicadeza interior. A coisa passava-se através de trocas de energia, de calor, e mais do que isso, o que eu acho que havia era uma verdadeira troca simbólica. Nós imaginávamos que estávamos num filme enquanto dançávamos, cada vez mais perto, cada vez mais confiantes e enquanto rodopiávamos aproximávamo-nos de uma imagem dos nossos melhores ídolos. Abraçávamos, aquentávamo-nos, beijávamo-nos como eles faziam e depois, nesse pequeno vaivém em que o mundo onde estávamos coincidia exactamente com a imagem que tinhamos dentro da cabeça, éramos soberbamente felizes. É por isso que há tanta gente a escrever livros dizendo que aquilo que, na treva humana, nos distingue, é a qualidade dos nossos ícones, dos nossos ídolos, dos nossos simbolos. Assim eu estava. Naquele dia, numa festa estranha - mesmo que a duzentos metros daquelas onde eu era o mais atado dos moços - senti-me o meu pequeno herói e avançei. A certa altura, estava tenso, lembro-me, olhava todos os lados da cave a ver se alguém se estava a rir de mim, não estava, ninguém se ria de mim, o caleidoscópio rodopiava no tecto, os pedaços de luz davam áquela noite uma atmosfera mágica, não sei porquê viro a cara para o lado, o meu par - tinha nome de anjo vim a saber depois - estava com a boca aberta, achei estranho, nunca me tinha acontecido, tapei-a com a minha boca, que sensação esquisita, o Marlon Brando, o Clark Gable nunca terão beijado assim, eu imaginava que os beijos deles saberiam a morango, a ananás, quanto muito a mousse de chocolate, não me parecia saber a nada aquela boca, aquela língua, um beijo é isto, meu deus?, por essa altura já a sala toda me olhava, aquele instinto de actor que nasce no mais tímido dos mortais agigantou-me, fiz de conta que estava a delirar com aquilo, vamos lá para fora, disse, fazia parte do ritual do engate, três, quatro, cinco, as voltas que forem preciso, depois um beijo, e finalmente o sair da sala para um momento de maior intimidade. O que eu fui fazer?! Ía estar sózinho com uma rapariga, ainda por cima depois de a ter beijado. E de não saber que raio era aquilo que me tinha acontecido. Só me sentia lambuzado, mais nada. Não sei quem é que inventou o romantismo do primeiro beijo. Eu passava bem sem ele. Sabia a vazio, a saliva, a cuspo. A nada. E depois, o terrível que foi a solidão à entrada do prédio. Eu abraçava-a para não lhe ver os olhos, para não me aterrorizar. E dizia aquelas coisas horríveis, que bem se está aqui!, quando era exactamente o contrário que eu sentia. E que só me faziam sentir ainda mais ridiculo. Queria desaparecer. A certa altura fui salvo pelo síndrome da gata borralheira. O pai tinha-lhe posto limites de hora e ela tinha de voltar. Fui levá-la a casa. Talvez lhe tenha dado a mão mas eu já não estava com ela. Na minha cabeça já redigia posts mentais para contar aos meus amigos a façanha. Foi o momento mais glorioso da noite. A coisa tinha sido tão intensa que eu no dia seguinte já nem me lembrava da cara dela. E tinhamo-nos combinado encontrar por volta da uma. Sabia que tinha franja. Ainda me estou a ver. Encostado à parede do pavilhão dos Viveiros na entrada de cima, cada vez que via uma moça de franja avançava com um leve sorriso, olhava e, se não fosse reconhecido, caminhava até ao portão refazendo novamente o percurso. Fiz isso várias vezes. Felizmente ela tinha mais boa memória. Ou tinha-me visto melhor, debaixo do candeeiro onde eu lhe tinha dito a maior colecção de frases pires de que me lembro. Sorriu para mim logo que me viu. Eu avancei para ela. Tinha o discurso preparado. Foi o namoro mais curto da história, durou uns quinze minutos. Expliquei-lhe que queria ser livre, que a liberdade, que queria ser livre e com liberdade, que queria ser livre, a liberdade - imaginem o Ricardo Araújo Pereira a fazer de Paulo Bento, substituam liberdade por tranquilidade e têm a figura que este vosso santo fez - e que por isso, embora tivesse sido muito bom, que nunca mais me iria esquecer daquela noite - e acertei, vistes?!- não podia andar com ela por causa da liberdade, essa malandra, ser livre, entendes? Ela olhou para mim entre o desiludida e o divertida, que não compreendia nada do que eu estava a dizer, nem eu, mas não lhe disse, mantive-me em grande união espiritual comigo mesmo, mas lá deve ter pensado com os seus botões, o tipo não sabe beijar, abraça-me como se me quisesse partir enquanto me diz frases esquisitas, que se lixe.
E assim foi, sem tirar nem pôr, a história do meu primeiro beijo.





sábado, 1 de dezembro de 2007

O Falhanço dos Olivais (continuação)

Não está por isso aqui em causa o arrojo e singularidade das soluções urbanísticas que constituiram o bairro constituído por unidades de vizinhança, pela existência de vias de acesso particulares às casas e prédios que eram autónomas das vias de circulação, por um equilíbrio entre a rua, o quarteirão e a artéria, pela predominância de espaços verdes entre as habitações. O bairro projectado, mantendo toda a sua singularidade, tinha também proposto um núcleo central destinado a serviços. Esse núcleo chegou com grande atraso, como o sabemos. Nalguns comentários do post que referi fala-se de que esse atraso libertou o bairro de poluição, de intranquilidade. É uma perspectiva a somar àqueles que queria propôr. Há muito mais pontos por onde podemos discutir este tema, para o qual proponho três entradas:




1. Como é que este adiar da construção do núcleo central do bairro moldou a forma como nós vivemos os e nos Olivais?
Como é que nos organizámos para estar perto da cultura, seja do cinema, seja da música, seja do teatro, já que no nosso bairro não havia equipamentos capazes de atrair esse tipo de manifestações? E não haveria mesmo ou criou-se um modelo de comportamento que não valorizava as possibilidades culturais do bairro (o centro comercial dos Olivais teve um pequeno auditório que rapidamente foi desfuncionalizado, o Vale do Silêncio e os Olivais Velhos chegaram a servir de palco a concertos de música, houve cinema ao ar livre da Praça Salazar, o salão paroquial e as escolas chegaram a acolher espectáculos de teatro (entre outros exemplos), para além daqueles acontecimentos que decorrem da dinamização da vida associativa de colectividades de cultura e recreio )? E não falo da cultura no seu aspecto mais restrito, falo também em relação as espaços de convívio num bairro que fechou durante muitos anos às dez da noite, horário de verão. Como é que nós resolvemos os problemas criados por essa ausência de infraestruturas culturais? Como é que tirámos partido da predisposição do bairro para algumas actividades desportivas, quer dentro do bairro, quer nas proximidades (remo, vela, na doca do Poço do Bispo)? É claro que esse olhar retrospectivo tem de ter um entendimento mais abrangente sobre o que é cultura, que não aquele que deriva apenas das expressões artísticas e culturais mais tradicionais. Muitos dos posts aqui atrás já falam disso.
Proponho alguns marcadores comuns: Memórias do Olival (Cultura/Arte/Desporto/Lazer conforme o(s) aspecto(s) focado(s) ).


2. Que consequências é que o adiar da construção do núcleo central do bairro tiveram na organização territorial do bairro?
Essa é uma conversa a que seria interessante conseguirmos fazer participar também aqueles que trabalham a ciência do lugar edificado. Que consequências é que podem ter para o bairro a implantação, num espaço muito desfuncionalizado e desvalorizado, como era aquele pequeno enclave entre a rua cidade de bissau e a de bolama, onde durante muitos anos só houve uma escola pré-fabricada, um supermercado, hortas e armazéns abarracados e clandestinos, de um colosso como o é o Shopping Center (componente comercial e habitacional)? Múltiplos aspectos: a diferente densidade populacional daquele pequeno enclave e do bairro onde se integra, a diferente estrutura e organização urbanística do território.
Proponho também como marcador comum, a ideia do Xai-Xai : os Olivais no Estirador (que poderão ser subdivididos em categorias mais restritas)


3. O que é que se pode fazer para que esta mistura urbanística possa ter um desenlace harmonioso e favoreça o crescimento do bairro?
Entre uns Olivais nados num plano urbanístico cuidado, arrojado e com uma inteligibilidade que se tornou uma evidência comum (e que pode por isso ser defendido ou contra-atacado) com uns Olivais nascidos da especulação imobiliária, dos acrescentos (o último dos quais ocorre no próprio shopping que com tão poucos anos já teve de sofrer remodelações profundas), das modificações posteriores aos projectos discutidos e apresentados, o que se pode fazer? Mais mal que bem, estas alterações fazem também com que o bairro hoje tenha serviços que não tinha e dos quais carecia e - também por causa de toda a requalificação da zona oriental, e de novas redes de transporte - tem atraído o regresso de muitos dos que nele cresceram.
Proponho também um marcador comum: Olivais Vivos (que se pode subdividir em várias categorias também).


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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A promessa do Olival (continuação)



Começámos a ouvir o F.M.I. num maxi-single que tinha escrito na face, proibida a audição pública, o que fazia daquele acto um momento ainda mais rebelde e único. E lá começa o Zé Mário Branco a rodar no vinil , já só me lembro de algumas frases desgarradas, recordo-me que tudo começava por uma brincadeira, por umas asneiradas em ritmo de pop chula, que ía crescendo de intensidade, até ao momento dramático do choro, da raiva da angústia máxima, da explosão com qua acabava a primeira parte do disco. Pausa para virar o vinil no prato e depois o discurso calmo, compassado, a flauta redentora, o assumir-se, a música do ser solidário.




Ficámos em silêncio durante um bom par de minutos. Saímos de casa, subimos de novo ao Tó, e só quando nos sentámos na relva a alargartar é que o Ringo Star disse aquela frase que adoptámos como se fosse a única verdade possível para os nossos vinte anos abertos:




- Esta merda devia ser ensinada nas escolas!




Aquela frase nunca a esqueci. Muitos anos mais tarde vejo-me a dar aulas numa escola profissional, a animadores sócio culturais, no Monte da Caparica. Um dia estava eu a preparar uma das últimas aulas do ano e para mim - eu já sabia que ía deixar a escola porque tinha sido convidado para um outro lugar- uma das últimas aulas que iria dar naquela escola, quando me bateu aquela frase, aquela máxima, assinada no sangue do entusiasmo por todos os participantes naquela audição pública do FMI e sabia, eu iria ter de mostrar aquele disco aos meus alunos. Um gajo é quase nada senão cumprir algumas das bocas que atirou para o ar na adolescência.




Foi a medo confesso. Tratava-se de miúdos dos seus dezasseis, dezassete anos, com vidas tisnadas e batidas pelo sol ali da Trafaria e do Monte da Caparica mas mesmo assim miúdos, que não sabiam nada sobre o que se tinha passado à vinte e poucos anos. Mas eu tinha de ser fiel à minha promessa de juventude no Olival, afinal eu sempre achei que aquela merda devia ser ensinada nas escolas.




Encontrei aquele que me pareceu o melhor enquadramento para a ocasião: o FMI falava da história de desencanto de um homem que se tinha entregue de alma e coração ao processo de desenvolvimento cultural e político que tinha marcado o período revolucionário e este tinha sido uma das alturas em que o movimento da animação sócio cultural teve uma grande implosão discursiva, tanto no campo da teoria como das práticas. Disse-lhes também que não ligassem para alguns aspectos que já estivessem desactualizados. E expliquei-lhes também a promessa do Olival.




Coloco o cd, uma versão actualizada, já não o vinil que obrigava a uma paragem e começam a ouvir-se os primeiros acordes do FMI. As asneiras, o palavrões. Eles riem-se nervosos. Estamos sentados em circulo. Aproveitam os períodos de troça de Zé Mário para se libertarem do nervoso. O disco avança e percebe-se o aumento de intensidade dramática. Quando ele começa a gritar e depois a chorar ouve-se o ruído da respiração de cada um deles. Olham-se entre o medo e a alegria de uma aventura. E depois vem a calma, a tranquilidade, o silêncio, a música da flauta, a alusão aos bombos, ao rio de S. Pedro de Moel, ao grito surdo e cavo, de quem é o carvalhal? é nosso!.




Acabou a audição. Há logo uma voz que se levanta para se sossegar a si mesma:


- Isto já não tem nada a ver com hoje...


Ao lado não o deixam acabar:


- A bica não está a quinze tostões e o pastel de nata a sete e coroa mas de resto é igual...- diz uma fazendo alusão a um dos versos do FMI.


E lá continuam a discutir. A aposta tinha sido ganha. No final da aula uma das raparigas vem ter comigo:


- Este cantor já morreu, não morreu?


- Não, está bem vivo. Porque dizes isso?


- Tenho sempre a impressão de que o que é bom já acabou.


E dois dias depois há uma outra que me traz uma foto. Era do pai, no quarto, com um poster do Che, e ele a fumar, há uma guitarra em cima da cama.


- Eu nunca soube o que é que o meu pai estava a ouvir. Agora já sei que era esta música.


Nem a desmenti explicando-lhe que este espectáculo só tinha surgido nos anos 80 e que provavelmente aquela foto era anterior. O que é que interessava?! Por vezes a ficção é mais intensa que o real e ali estava uma filha a querer identificar-se com o seu pai. E isso era tão real que feria os sentidos. Não acabou por ali. Um dia, já trabalhava neste velho teatro, recebo um convite para um espectáculo de dança no CCB de uma coreógrafa e bailarina que desconhecia. No elenco estava uma actriz que tinha sido minha aluna, por acaso aquela que defendera mais veementemente a actualidade daquela obra de José Mário Branco.Tinha sido ela que me mandara o convite e tinha lá escrito, não podes faltar. A certa altura do solo começam a ouvir-se excertos do FMI. No camarim, depois do espectáculo, a minha antiga aluna veio ter comigo toda contente:


- Percebeste porque é que era importante que viesses?

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